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Yaquequerê Do Axé Ilê Obá: Dona Antônia Pimenta

Yaquequerê do Axé Ilê Obá: Dona Antônia Pimenta

Manter a memória de nossa casa é manter viva a história de nossos ancestrais, nossas crenças, nossos irmãos e partilhar de histórias que não tivemos chance de viver, mas com as quais podemos aprende muito.

Nascida em 07/05/1929, paulista da região de Bauru/SP, conhecida como mãe Toloquê, Yaquequerê Dona Antônia Pimenta, filha de Logum Edé, ficou à frente do cargo durante 30 anos.

É mãe carnal do Ogan Wilsinho de Xangô e de Nilze de Yemanjá. Braço direito de nosso avô Pai Caio de Xangô, o “Velho”, como era tratado carinhosamente por ela, que o acompanhou desde os tempos da umbanda lá no Brás. Passou pela saudosa casa da Rua Mucuri, onde se iniciou os tempos de Candomblé.

Lembranças de doçuras marcam meu Ori… Impossível esquecer uma pessoa tão única como ela. Recordo-me dos inúmeros momentos em que conversávamos sobre assuntos diversos; suas vivências no interior de São Paulo, à beira do rio Turvo e do rio Piracicaba, seus familiares, as dificuldades pelas quais passou em tempos idos e ainda sobre a força dos orixás em sua vida, lembranças compartilhadas com a nossa Yalorixá Sylvia e com a Equedi Elizete de Iansã.

Mãe pequena de todos os filhos do Axé, participou das iniciações desde os tempos do nosso avô e continuou no cargo e funções acompanhando a sucessora do “Velho”, Mãe Sylvia de Oxalá. A ela cabia a responsabilidade de cuidar de alguns elementos indispensáveis durante o Ipadé. Com voz decidida e bem marcada, entoava as cantigas de Exu.

Como mãe criadeira, lembro-me das vezes em que acordava os Iaôs bem cedinho para fazerem as rezas, “batia” perfeitamente e na mesma cadência o Paó, fazendo questão sempre, que todos aprendessem a cadência correta. Confessava as dificuldades e responsabilidades inerentes ao seu cargo, em épocas tão diversas, atravessou gerações, mas continuou firme seguindo as determinações de Xangô, o patrono da casa.

Acompanhou nosso avô nas diversas visitas a Mãe Menininha do Gantois, de quem guardava muitas recordações, dela recebeu conselhos para quando fosse tomar posse de seu cargo de Ya – era o encontro entre Oxum e Logum Éde, Mãe e filho, direcionando caminhos. “Minha filha, seu cargo é de grande importância, mas você vai pisar em muitos espinhos assim como uma rosa”, foram essas as palavras sábias de Mãe Menininha que nossa Yaquequerê fazia questão de relembrar, guardando como conselho e lição e vida.

Anos de dedicação exclusiva ao Axé Ilê Obá, participando de iniciações, benzendo com as rezas antigas típicas da religiosidade do interior de onde veio, defumando a casa, rezando nos quartos de santo e ainda restava tempo para a conversa de fundo de quintal.

As crianças do Axé viviam ao seu redor, passava horas a fio sempre com um pequeno no colo, enchendo de mimos. Ela andava pelo Terreiro, acompanhada do Gustavo de Oxossi, a quem ensinou a falar e lhe contava várias histórias, como uma Griot africana, na diáspora. Era Pai e Filho, Oxossi e Logum Edé.

Iaquequerê conhecia a casa em seus mínimos detalhes, não se esquecia das cantigas dos tempos de Umbanda e das cantigas da tradição de Angola, tempos de aprendizado ao lado do “Velho” dizia ela. Cantigas, “ingorossis”, pontos, rezas, batuques, sonoridades, danças, cheiros, sabores de que ela relembrava.

Recordo de seu olhar cheio de felicidade ao participar das oferendas aos Orixás Tempo e Iroko, “puxava” sempre uma cantiga diferente com a mesma voz marcante: “Olha o tempo, olha a lambada macula dilê Zara ê tempo”, animada cantava os ingorossis do orixá Tempo.

Com a doçura de Oxum e a elegância de Oxossi, era o Logum-Éde da Yaquequerê, que abria a festa de Oxossi todo ano, trazendo o cortejo do orixá da fartura. Logum Ede é inesquecível com a dança sagrada, caçando, pescando, segurando a balança do Tempo, regendo o tempo de caçar e o tempo de pescar, sempre com o mesmo “pé de dança”, apesar da idade avançada de sua filha. Manejava com elegância seu abebé e seu ofá, encantando a todos, celebrando com seus filhos a comunhão com o sagrado – Loci Loci Logum!

Elegantemente vestida com as roupas da nossa tradição afro-brasileira, portando seus fios de contas, seu pano da costa, era bem cuidada pela Equedi Elizete de Iansã e pela Ebomi Regina de Xangô.

Mãe Sylvia sempre fazia questão de deixar algum de nós cuidando da Yaquequerê, mandava chama-lá para participar dos fundamentos que se realizam durante a madrugada.
“Meu filho, vá chamar a Yaquequerê” – “Onde está a Yaquequerê?”

As duas se sentavam nas cadeiras próprias no barracão, abençoando a todos que chegavam ou saiam do Axé, sempre com o sorriso estampado no rosto dizia: – Meu pai Logum que te abençoe. Nesse momento a memória do Axé Ilê Obá ficava viva e em movimento, através dos relatos de histórias, que ambas contavam de suas vivências no Terreiro.

Quando Yaquequerê se zangava, era flechada pra todo lado, porém sempre em busca de nos aprimorar e de que prestássemos atenção aos detalhes, que muitas vezes passam despercebidos.

Logo cedo quando se levantava, não falava com ninguém, silêncio total até a hora em que bebia um copo de água, pra “quebrar o jejum” e aí sim nos abençoava, às vezes nos esquecíamos desse fundamento e ficávamos lá na porta esperando pra pedir a benção, com a cabeça erguida ela saía sem olhar pra ninguém pegava sua dilonga, tomava água, depois disto um bom café “margoso”, hábito herdado do interior, um bate papo e ali e acolá e então começava o seu dia, perguntando à Yabassé Maria de Obaluaé se era preciso a sua ajuda. A Yabassé também ficava sempre atenta às necessidades da Yaquequerê, preparando o seu café e lhe servindo à mesa.

Doce, desconfiada, enérgica, guerreira, conselheira, dona de um saber ancestral que atravessou gerações, deixou sua marca memorável em nosso Terreiro.

Festa de Oxossi, abril de 2009, parte para o Orum, Mãe Toloque, a morada dos ancestrais está em festa, chega ao Orum a filha do santo novo que gente velha respeita, conforme dizeres de Mãe Menininha de Gantois. Encantou-se no caminho que as águas doces percorrem dentro da Mata.

Lossi Lossi Logum!!! Oké Aro!! Ora yeye Oxum!!!
Aos pés de Iroko e do Orixá Tempo sempre nos lembraremos de ti, no orvalho que invade a mata sentiremos sua presença. Negra, Mulher e Mãe, seu axé está inscrito em nossos corpos. A benção aos Ancestrais. Só estamos aqui graças ao legado deixados por Vocês.

Por Ebomi Renato Pereira de Ogum.

 

Pequeno Glossário:
Yaquequerê: Mãe-pequena
Ipadé: Ritual realizado antes das atividades internas da casa, onde são louvados Exu e os Ancestrais.
Paó: Saudação com as palmas em ritmo compassado para reverenciar os orixás e os mais velho.
Griot: Contadores de histórias, provérbios, aconselhadores em algumas sociedades africanas, geralmente são os mais velhos dentre a comunidade, que acumulam o saber adquirido na experiência vivida.
Ingorossi: Rezas em forma de cantigas na tradição angola.
Dilonga: Caneca.

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